Recaída

O mal-estar inerente á privação juntamente com a receptividade aos estímulos ambientais associados ao consumo, desempenham um papel crucial no desencadeamento do processo de recaída. Após um período de abstinência o paciente pode começar a ganhar consciência da sua capacidade de controlar o seu comportamento, eventualmente tem um emprego, está se a integrar-se cada vez mais na sociedade, começa a ganhar confiança, e a esquecer progressivamente as partes negativas do consumo. Um dos álibis utilizados para a recaída é este: “eu agora vou conseguir controlar, agora que tenho uma vida organizada posso consumir moderadamente”. Outro álibi possível seria: “é só uma vez”.


A recaída pode acontecer devido á incapacidade de gerir uma situação de risco, como encontrar um antigo amigo de uso. Ou pode ser planeada, de certa forma inconscientemente, tomando uma sucessão de decisões que maximizem as suas probabilidades de se ver “obrigado” a consumir. O indivíduo pode começar a olhar para os pontos negativos da sua vida sem consumo até chegar á conclusão que o deixe consumir, por exemplo: “a vida é tão má, que mais vale consumir”. Tudo isto sem se aperceber que se está a manipular a si próprio desde o início. Muitas vezes o processo de recaída começa muito antes do consumo em si, o indivíduo vai-se progressivamente isolando, e começando a viver como se estivesse a consumir sem consumir. Em outros casos qualquer desculpa serve: “se a minha mulher desconfia que eu recaí mais vale ter o proveito”.


Tendo em conta que a recaída faz parte da recuperação, tem de ser integrada no processo de terapêutico. O “fundamentalismo” em relação a recaída é negativo para o paciente e para o terapeuta. Isto tende a acontecer nos narcóticos anónimos, onde a recaída é sobre dramatizada. O indivíduo pode continuar a consumir alimentado pela culpa da própria recaída, ou deixar de aparecer nas reuniões com medo de ser julgado. Como tal, deve ser integrado no projecto terapêutico; tanto a minimização dos riscos de overdose (que acontece maioritariamente na recaída, visto que a tolerância baixou e a dose é a mesma do tempo de uso) tanto a percepção da recaída como fazendo parte de um processo de maturação. A filosofia de prevenção de recaídas é um modelo de tratamento cognitivo-comportamental, no qual são propostas alternativas comportamentais, abandono de crenças, e mudança de expectativas ilusórias sobre o consumo e recaída. O objectivo é que o indivíduo acumule as ferramentas cognitivas e as aptidões psíquicas necessárias, tanto na antecipação e prevenção das recaídas, como na gestão das suas consequências (Angel, Richard, Valleur, 2002).


Sofá do Psicólogo,

Hugo Zagalo


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